A vitória de José Antonio Kast nas eleições presidenciais do Chile neste domingo (14) consolida uma guinada à direita na política sul-americana. Com 59 anos, o advogado e ex-deputado do Partido Republicano superou a candidata da esquerda, Jeannette Jara, capitalizando o descontentamento popular com a insegurança e a estagnação econômica.
Mas, para além das fronteiras chilenas, Kast é frequentemente rotulado pela imprensa internacional e por analistas políticos como o "Bolsonaro chileno". A comparação com o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, não é por acaso: ambos compartilham agendas ideológicas, bases de apoio e uma retórica comum em diversos temas.
O G1 reuniu os principais pontos que explicam essa associação e onde os dois líderes se diferenciam.
1. Agenda de 'Lei e Ordem'
Assim como Bolsonaro elegeu a segurança pública como bandeira central em 2018, Kast construiu sua popularidade sobre um discurso de tolerância zero contra o crime.
Mão de ferro: Kast defende ampliar o poder de fogo dos policiais e o uso das Forças Armadas em zonas de conflito, como na região de Araucanía.
Imigração: Uma de suas propostas mais polêmicas — e que lembra o discurso de "muros" de Trump e a retórica nacionalista de Bolsonaro — é a construção de uma vala na fronteira norte do Chile para impedir a entrada de imigrantes ilegais, além da deportação imediata de estrangeiros irregulares.
2. Valores conservadores e 'Pauta de Costumes'
A base eleitoral de Kast, assim como a do bolsonarismo, é fortemente alicerçada em grupos religiosos (católicos e evangélicos) e defensores da "família tradicional".
Contra o aborto: Kast é um opositor ferrenho da legalização do aborto em qualquer circunstância e crítico da chamada "ideologia de gênero".
Ministério da Mulher: Em sua campanha de 2021, ele chegou a propor a extinção do Ministério da Mulher, embora tenha recuado estrategicamente dessa ideia posteriormente. A postura ecoa movimentos de redução de pastas com foco social ou identitário.
3. Saudosismo da Ditadura
Talvez o ponto de maior convergência histórica seja a relação de ambos com os regimes militares de seus países.
Enquanto Bolsonaro sempre exaltou o coronel Brilhante Ustra e a ditadura brasileira (1964-1985), Kast nunca escondeu sua simpatia pelo legado econômico e político de Augusto Pinochet (1973-1990).
Seu irmão, Miguel Kast, foi ministro do governo Pinochet. Durante a campanha de 2017, José Antonio afirmou que, se o ditador estivesse vivo, "votaria nele".
"Kast representa uma direita sem complexos", afirmou o próprio candidato em diversas entrevistas, rejeitando a postura de centro-direita tradicional que tentou se distanciar do pinochetismo nas últimas décadas.
4. Economia Neoliberal
No campo econômico, a cartilha de Kast se assemelha à de Paulo Guedes no governo Bolsonaro:
Estado Mínimo: Defesa radical da redução de gastos públicos e diminuição de impostos para grandes empresas como motor de investimento.
Desregulação: Crítica à burocracia estatal e incentivo ao livre mercado, opondo-se às políticas de bem-estar social propostas pela esquerda chilena.
As diferenças: Estilo e Origem
Apesar das semelhanças ideológicas, analistas apontam que Kast e Bolsonaro possuem "embalagens" diferentes.
O temperamento: Ao contrário do estilo explosivo, populista e muitas vezes improvisado de Bolsonaro, Kast é descrito como calculista, calmo e burocrático. Sua fala é mansa, raramente levanta o tom de voz em debates e ele evita o confronto direto com a imprensa nos moldes agressivos do brasileiro.
A origem política: Bolsonaro fez carreira no "baixo clero" do Congresso e ascendeu como um outsider antissistema. Kast, embora use retórica antissistema, vem da elite política tradicional (foi deputado por 16 anos e militante da UDI, partido conservador tradicional) e pertence a uma família rica e influente, ligada a imigrantes alemães.
O que esperar
Com a vitória confirmada, Kast assume em março de 2026 com o desafio de governar um país polarizado, onde o Congresso não terá maioria absoluta de seu partido. A "bolsonarização" do Chile será testada na capacidade do novo presidente de transformar sua retórica de campanha em políticas públicas efetivas sem inflamar os protestos sociais que marcaram o país nos últimos anos.