Produtores e representantes da indústria do arroz de Santa Catarina subiram o tom das críticas contra a gestão do governo federal nesta quarta-feira (3). Em reunião realizada em Brasília, lideranças do SindArroz-SC (Sindicato das Indústrias de Arroz de Santa Catarina) acusaram o Governo Federal de "ignorar a gravidade" da crise que atinge a cadeia produtiva no estado.
O principal ponto de conflito é a desvalorização acentuada do grão no mercado interno. Segundo o sindicato, a saca de 50 kg de arroz está sendo negociada a cerca de R$ 55, valor significativamente abaixo do custo de produção, estimado em R$ 75.
A categoria argumenta que as políticas adotadas pelo governo — como a facilitação de importações e compras públicas tímidas pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) — não resolveram o problema e, em alguns casos, agravaram a situação ao inundar o mercado.
'Governo não agiu'
Durante a agenda na capital federal, os produtores cobraram ações mais enérgicas para o escoamento da produção excedente. A tese defendida pelo setor é de que o Brasil possui um "superávit" de arroz, contrariando a narrativa de desabastecimento que motivou leilões de importação no passado recente, logo após as enchentes no Rio Grande do Sul.
"O governo ignorou a gravidade do cenário. O custo de produção no Brasil é um dos mais altos do mundo devido à carga tributária, e o produtor está pagando para trabalhar. Sem medidas para retirar esse excedente do mercado interno, a cadeia vai descapitalizar e quebrar", afirmou um dos representantes do SindArroz-SC.
Divergência sobre a Conab
A atuação da Conab tem sido o centro das discussões. O governo anunciou recentemente a intenção de comprar arroz para formação de estoques públicos, visando garantir a segurança alimentar e evitar a inflação do alimento na mesa do consumidor.
No entanto, para as indústrias de Santa Catarina, o volume anunciado (entre 100 mil e 200 mil toneladas) é insuficiente para regular o preço de mercado. A OCESC (Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina) reforçou que medidas pontuais de compra interna "não mudam o estoque de passagem".
A demanda do setor produtivo é outra: o investimento em exportação.
O que pedem os produtores
Para equilibrar as contas, os arrozeiros exigem que o Ministério da Agricultura acione mecanismos federais de apoio à comercialização externa, especificamente:
PEP (Prêmio para Escoamento de Produto): Um subsídio governamental para quem compra o produto diretamente do produtor e o escoa para regiões de difícil abastecimento ou para o exterior.
Pepro (Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural): Valor pago diretamente ao produtor (ou cooperativa) que se disponha a vender seu produto pela diferença entre o preço mínimo e o valor de mercado.
A estimativa das entidades é que seria necessário escoar cerca de 1 milhão de toneladas para o mercado internacional para que os preços internos voltassem a patamares sustentáveis para quem planta.
Contexto da crise
A tensão entre produtores de arroz do Sul e o governo federal se intensificou em meados de 2024. Após as cheias históricas no Rio Grande do Sul (maior produtor nacional), o Planalto editou Medidas Provisórias autorizando a importação de arroz para evitar desabastecimento e alta de preços.
Na época, entidades como a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e federações estaduais foram ao STF (Supremo Tribunal Federal) tentar barrar a medida, alegando que mais de 80% da safra já havia sido colhida antes das chuvas e que não havia risco de falta do produto.
Agora, em dezembro de 2025, o cenário de preços baixos para o produtor parece confirmar o temor de excesso de oferta denunciado pelas entidades, gerando a atual crise de rentabilidade no campo catarinense.